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Ele devia ter mais ou menos alguns anos sem décadas para conseguir ver dragões em baixo da escada. Todas as noites, quando sua mãe desligava a luz de seu quarto, ele ansiosamente esperava 7 minutos passarem. Então, deslizava para fora da cama e rastejava até a porta. Pela fresta checava se a luz da sala estava desligada. Desenrolava sua mão em direção à maçaneta e abaixava lentamente. Um pouco mais lentamente. Até que, em certo instante, um suave rangido comprovava que a longa operação de controle respiratório havia chegado ao seu propósito. Ainda mais cuidadoso abria uma fresta que somente seu corpo passaria. Na trincheira, ele se desviava de bombas móveis. E quando menos percebia estava na frente da mais abominável caverna. O silencio, até então tão necessário, começava a incomodar. Assim, ele sabia que estava na hora de enfrentar seu dragão diário, mas nunca encarou. Voltava para sua cama, já andando, já homem, pensando que talvez amanhã.

Retirou-se da mesa em necessário silêncio; saiu de casa. O elevador estava claustrofóbico como sempre e o sol fazia do dia algo mais bonito do que ele merecia. Caminhou rapidamente como se soubesse a direção, porque jamais admitiria que estava perdido em meio as ruas tão sempre iguais. Ele chegou no lugar errado. O problema das procuras da vida é que, de inicio, sequer se perdeu algo para encontrar. Ele encontrou um senhor jogando xadrez contra o vento. Parecia que o nada estava ganhando. Ocupou o lugar vazio com a autoridade de uma hipótese. O velho não levantou os olhos, ele nem sabe se o velho o notou. Então continuo o jogo da brisa, sem muito saber onde estava o começo e sem nunca chegar ao final.

Tem gente que acredita em conto de fadas, tem gente que acredita em Deus. Conheço muitos que crêem em futebol, outros tantos em política e economia. Já vi pessoas que pensam que são bruxas, para elas nunca faltaram vassouras. Tem certos seres que confiam em vampiros e Raul Seixas,  seres que viram Salomão, o amor e os Palmares. Há quem acredita em Capitu, há pessoas que enxergam morais em Vinicius. Eu sei que muitos confiam na verdade, e outros tantos nas tantas outras verdades.

Por isso, me sinto segura em escrever que acredito no invisível. Simples e puro assim.

Há um instante, entre o que te faz vivo, que é irreversível. Momento imóvel quando tudo pode ser apreendido e previsto, um susto de infinito. Não há inspiração, muito menos expira-se alívio. É assim que se descobre o nada para compreender todo o entorno. Em sequência, a vida segue, o mundo rodopia nas pontas dos pés.

“Existe um pássaro que todos os dias, quando o sol se põe, pensa que está morto. Quando o dia nasce ele canta para celebrar a vida renascida” (Inquietos)  - E isso acontece a cada piscar de minhas pálpebras. Não é a certeza que o sol volta, mas a vida em moção depois da consciência.

A morte em vida consome meus dias e eu não sei o que fazer. E eu me torno pedaço de sombra, contorno de gente. Esqueço do caminho e o motivo se torna distante.

Tem um pedaço de universo em mim, quem esqueceu ele aqui?

 

13 anos, dois meses, 25 dias, 12 horas, 11 minutos. Cada um tem seu marco e este, foi o dele. Respeite.

Não significa superação, felicidade eterna, elucidação nem auto descoberta. Não quer dizer nada além de uma pontuação. Ele sabe o que é, mas não vai me dizer por ver fraqueza em meu corpo. Às vezes ele simplesmente entende a sinalização e guarda para si todos meus segredos porque acha que eu nunca vou estar preparada para ouvi-los. Então, ele fica com as cicatrizes que sequer romperam sua pele para brincar de super herói.De perto, eu  guardo o segredo dele, pois se ele um dia descobrir a inexistência de fadas, tudo, inclusive nós, se torna irreal.

FILHA: Ando em dúvida se há mais perda no ganhar ou no perder. Tudo soa como constante troca de bens, de pessoas, de sentimentos. Posso me ausentar disto?

PAI: Pode

FILHA: Então é isso que farei

PAI: Não viver?

FILHA: Não papai, vou me retirar do campo, só isso

PAI: Tudo bem

 

Gosto de música sem nome, livro sem título, palavra sem som. Adoro lugares invisíveis, restaurantes sem portas, amores sem títulos, pessoas sem rostos, viagens sem fotos, memória sem matéria. A referência do homem saiu da realidade e passou para a gramática. Nada contra as palavras, adoro elas, não vivo sem elas, mas invenções humanas têm suas limitações. Termos me fogem e expressões não se relevam a ponto de memorização. Minha história é escutar os segredos do momento imóvel, dançar o fogo das velas, tropeçar do precipício, ver o corpo sabotar o desejo para o sentimento suspirar e sentir o triste peso do nada.

Um dos meus poemas favoritos quando adolescente, The road not taken, explica sobre a inevitabilidade da escolha. Extrapolando Frost, porque a vida extrapola, ou mesmo se acontece inversamente, faço teorias sobre rudes sutilezas para organizar o meu caos que nomeio humano. Criatividade à flor da pele, não?

Os caminhos polifurcam multidirecionais em cenários possíveis, previsíveis, suspeitos, suspensos. A repressão da passividade sempre direcionou meu pensamento à   justificação cociente ou inconsciente da ação, mas, de repente, não é assim.

É triste e edificador encontrar com o descontrole. ‘Não adianta’ passa a significar, paralelamente, humildade deixa de ser tratamento e torna o ser em sua magnitude.

Desde sempre o homem fala disto e eu, que tenho um pedaço de mim no universo, não quis ver por medo do que já via. Então, assumo, tenho medo.

Conheci hoje a menina mais impressionante que vaga por esta terra. Não é pela sua beleza rústica, mas pelo sentimento lapidado que ela incorpora.

Não acreditava que fosse possível amar tanto, ela ama. Assim, fácil, simples, nu, cru. Ela não me disse isso, pelo contrário, manteve uma conversa agradável sobre amenidades. Ah, mas a mim ela não engana. Eu percebi o jeito que ela tocou a folha da árvore, e sorriu para o vento, e sentiu o cimento. Eu a vi respirar doce e exalar amor. Tudo que sai dela é amor.

Dei a volta em torno de seu corpo para dar o veredicto: sim, todos os fios amam. O mais surpreendente é que ela nem sabe o quão rara é. Convivo com muitas pessoas que se acham únicas, conheço centenas delas. Só essa menina me faz existir.

É fácil amar a conveniência: praias, comidas, amigos. Porém, amar a remela do mendigo que ainda dorme? Amar a barata que passeia pelo deserto? Amar a picada do mosquito? Amar o choro da criança sentada ao seu lado no avião? Sei não…

Ela é o tipo de pessoa que seres limitados, como eu, simplesmente não entendem.  - Você não o conhece, ela te fez mal, isto não é seu, você nem sabe o que aquilo é, então,  - como você pode amar tudo? Tão fácil e involuntária…A menina sequer sabe o que significa reciprocidade.

Eu sei que muitos a chamam de ingênua, e riem nas suas costas. Isso, porque eles não compreendem o dom de ser ela. A vida dela, em si, ironiza muita gente.

Acho que não é justo pessoas assim existirem, eu queria ama-las como elas amam a sujeira de meus sapatos. Queria ser capaz de simplesmente aceitar o ser humano e ama-lo, amar as consequências e as dores, mas isso é para pessoas como ela. E eu, ah, eu fico aqui… só admirando.

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