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Você, toda vez que esquece que o mundo não é seu, desliza um sopro de alma e acaba deixando gotas de seu sangue no caminho .

Não aguento te ver assim. Vá ao toillet agora mulher, e veja se volta com uma máscara melhor! Pinte um sorriso em seus olhos e contorne sua boca com gentilezas. Seja firme, seja fingida, seja o que eu preciso, o que ordeno.

Desse jeito, você não é boa companhia, vou ter que te entorpecer. Tome mais um copo e recrie sua persona, porque eu vou esculpir nossos rostos e eterniza-los em mármore. Quero que vejam nossa perfeição. Não me decepcione.

Desaprendi a falar, porque de nada mais as palavras me adiantavam. E isso, que incomodava centímetros de pensamento, agora me tornou uma crença.

Aprendi a rezar para o homem, sorrindo imagens e vislumbrando acepções de uma racionalidade  fingida. Sem muito o que fazer com meu corpo, desertei minha sepultura e fiz de mim pujança de universo.

Você – que dança em meu rosto, lambe meu pescoço e cai em meu colo – é muito iníqua. Quando um dia dura três anos, você pega suas malas sem ponderação e vai para Calama, sem dizer porquês. E de nada adianta eu te chamar, você não volta para dar o meu perdão.

É na hora dos malabarismos que você reaparece exigindo um lugar que eu já esquecia que era seu. Sem forças, cedo ou tarde, eu concedo. Então, volto a precisar de você até sua próxima partida.

Não tenho nada para escrever nem mais sentir. Às vezes isso acontece. Me reservo o direito ao limbo, pois quase nunca a certeza existe. Tenho costume de arriscar, mas hoje não é o caso. Então, vou ficar com os murmúrios da cidade que me faz anônima.

…e o espaço me dá tempo, e o tempo me dá ócio, e o ócio me dá raciocínio, e o raciocínio me dá claridade, e a claridade me dá medo, e o medo me dá fuga, e a fuga me dá espaço…

(e)-Você consegue ver? está logo ali, lá em baixo. Cuidado para não escorregar, estamos bem alto.

-Não sei o que é, me empresta seus óculos?

(e)-Desculpe, sem eles eu não consigo enxergar … não dá

-É um rio

(e)-Interessante

-O que você vê?

(e)- vem logo para cá, as pedras estão molhadas, você vai cair

-Não vai me contar?

(e)-Obviamente, isso é uma cachoeira. Então, lá em baixo tem água, e aquilo que eu ví naquele segundo fica entre eu e a queda

Quando descobri o silêncio, tudo fez sentido. Percebi que não temo o escuro, o desatino, a solidão, a morte. Não tenho medo de nada em mim e de nada que sai dos meus olhos e entrega para tantos meu nome. Passei águas a procura das lógicas e razões de pessoas que enganam até que cansei e descobri a sinfonia das minhas ideias, que a ninguém pertencem e a ninguém mais quis decifrar. O ponto em que cheguei me tirou o ser e me deu isso, que me faz assumir tudo para não ter de lidar com a inutilidade de sentimentos humanos. Entendo sem palavras… Quem sabe um dia, saio de mim por esperança de você.

Ele não era humano, não podia ser. A barata passou pela poça e pelo seu pé, todos eles vieram do esgoto, é isso.  Sequer sei se seu cheiro ou seu comportamento era mais animalesco, tudo em torno dele era do homem, ele era pó. Por ser nada, ninguém o viu. Eles não o notaram quando abaixou as calças e sentou em uma caixa cômoda de papelão. Em seu trono o mundo não existia para ele, da mesma maneira que, em vida, ele não existia para todo mundo.

De longe, eu fiquei com medo de nunca tê-lo visto e inveja de não ter aquele tipo de mágica.

Não aprendi a contar. Pode ser um defeito de nascença  ou mesmo um erro de criação. Seja o que for, nunca disse isso para ninguém. Minha solução foi sempre usar os meus dedos, porque eles ficam visíveis em frente aos olhos e nada passa por eles. Conto agora essa história não porque aprendi os números, mas a relatividade deles. Mesmo assim, continuo preferindo as letras.

Ele devia ter mais ou menos alguns anos sem décadas para conseguir ver dragões em baixo da escada. Todas as noites, quando sua mãe desligava a luz de seu quarto, ele ansiosamente esperava 7 minutos passarem. Então, deslizava para fora da cama e rastejava até a porta. Pela fresta checava se a luz da sala estava desligada. Desenrolava sua mão em direção à maçaneta e abaixava lentamente. Um pouco mais lentamente. Até que, em certo instante, um suave rangido comprovava que a longa operação de controle respiratório havia chegado ao seu propósito. Ainda mais cuidadoso abria uma fresta que somente seu corpo passaria. Na trincheira, ele se desviava de bombas móveis. E quando menos percebia estava na frente da mais abominável caverna. O silencio, até então tão necessário, começava a incomodar. Assim, ele sabia que estava na hora de enfrentar seu dragão diário, mas nunca encarou. Voltava para sua cama, já andando, já homem, pensando que talvez amanhã.

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