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Não tenho nada para escrever nem mais sentir. Às vezes isso acontece. Me reservo o direito ao limbo, pois quase nunca a certeza existe. Tenho costume de arriscar, mas hoje não é o caso. Então, vou ficar com os murmúrios da cidade que me faz anônima.

…e o espaço me dá tempo, e o tempo me dá ócio, e o ócio me dá raciocínio, e o raciocínio me dá claridade, e a claridade me dá medo, e o medo me dá fuga, e a fuga me dá espaço…

(e)-Você consegue ver? está logo ali, lá em baixo. Cuidado para não escorregar, estamos bem alto.

-Não sei o que é, me empresta seus óculos?

(e)-Desculpe, sem eles eu não consigo enxergar … não dá

-É um rio

(e)-Interessante

-O que você vê?

(e)- vem logo para cá, as pedras estão molhadas, você vai cair

-Não vai me contar?

(e)-Obviamente, isso é uma cachoeira. Então, lá em baixo tem água, e aquilo que eu ví naquele segundo fica entre eu e a queda

Quando descobri o silêncio, tudo fez sentido. Percebi que não temo o escuro, o desatino, a solidão, a morte. Não tenho medo de nada em mim e de nada que sai dos meus olhos e entrega para tantos meu nome. Passei águas a procura das lógicas e razões de pessoas que enganam até que cansei e descobri a sinfonia das minhas ideias, que a ninguém pertencem e a ninguém mais quis decifrar. O ponto em que cheguei me tirou o ser e me deu isso, que me faz assumir tudo para não ter de lidar com a inutilidade de sentimentos humanos. Entendo sem palavras… Quem sabe um dia, saio de mim por esperança de você.

Ele não era humano, não podia ser. A barata passou pela poça e pelo seu pé, todos eles vieram do esgoto, é isso.  Sequer sei se seu cheiro ou seu comportamento era mais animalesco, tudo em torno dele era do homem, ele era pó. Por ser nada, ninguém o viu. Eles não o notaram quando abaixou as calças e sentou em uma caixa cômoda de papelão. Em seu trono o mundo não existia para ele, da mesma maneira que, em vida, ele não existia para todo mundo.

De longe, eu fiquei com medo de nunca tê-lo visto e inveja de não ter aquele tipo de mágica.

Não aprendi a contar. Pode ser um defeito de nascença  ou mesmo um erro de criação. Seja o que for, nunca disse isso para ninguém. Minha solução foi sempre usar os meus dedos, porque eles ficam visíveis em frente aos olhos e nada passa por eles. Conto agora essa história não porque aprendi os números, mas a relatividade deles. Mesmo assim, continuo preferindo as letras.

Ele devia ter mais ou menos alguns anos sem décadas para conseguir ver dragões em baixo da escada. Todas as noites, quando sua mãe desligava a luz de seu quarto, ele ansiosamente esperava 7 minutos passarem. Então, deslizava para fora da cama e rastejava até a porta. Pela fresta checava se a luz da sala estava desligada. Desenrolava sua mão em direção à maçaneta e abaixava lentamente. Um pouco mais lentamente. Até que, em certo instante, um suave rangido comprovava que a longa operação de controle respiratório havia chegado ao seu propósito. Ainda mais cuidadoso abria uma fresta que somente seu corpo passaria. Na trincheira, ele se desviava de bombas móveis. E quando menos percebia estava na frente da mais abominável caverna. O silencio, até então tão necessário, começava a incomodar. Assim, ele sabia que estava na hora de enfrentar seu dragão diário, mas nunca encarou. Voltava para sua cama, já andando, já homem, pensando que talvez amanhã.

Retirou-se da mesa em necessário silêncio; saiu de casa. O elevador estava claustrofóbico como sempre e o sol fazia do dia algo mais bonito do que ele merecia. Caminhou rapidamente como se soubesse a direção, porque jamais admitiria que estava perdido em meio as ruas tão sempre iguais. Ele chegou no lugar errado. O problema das procuras da vida é que, de inicio, sequer se perdeu algo para encontrar. Ele encontrou um senhor jogando xadrez contra o vento. Parecia que o nada estava ganhando. Ocupou o lugar vazio com a autoridade de uma hipótese. O velho não levantou os olhos, ele nem sabe se o velho o notou. Então continuo o jogo da brisa, sem muito saber onde estava o começo e sem nunca chegar ao final.

Tem gente que acredita em conto de fadas, tem gente que acredita em Deus. Conheço muitos que crêem em futebol, outros tantos em política e economia. Já vi pessoas que pensam que são bruxas, para elas nunca faltaram vassouras. Tem certos seres que confiam em vampiros e Raul Seixas,  seres que viram Salomão, o amor e os Palmares. Há quem acredita em Capitu, há pessoas que enxergam morais em Vinicius. Eu sei que muitos confiam na verdade, e outros tantos nas tantas outras verdades.

Por isso, me sinto segura em escrever que acredito no invisível. Simples e puro assim.

Há um instante, entre o que te faz vivo, que é irreversível. Momento imóvel quando tudo pode ser apreendido e previsto, um susto de infinito. Não há inspiração, muito menos expira-se alívio. É assim que se descobre o nada para compreender todo o entorno. Em sequência, a vida segue, o mundo rodopia nas pontas dos pés.

“Existe um pássaro que todos os dias, quando o sol se põe, pensa que está morto. Quando o dia nasce ele canta para celebrar a vida renascida” (Inquietos)  - E isso acontece a cada piscar de minhas pálpebras. Não é a certeza que o sol volta, mas a vida em moção depois da consciência.

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